segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Eclipsar


Párodo

Vejo o reflexo de tudo o que li e ouvi
incido o olhar em todo conceito que se faz
invólucro em umas das de mim.

Razão 
Irrazão
Forma 
Conteúdo
Corpo 
Alma
Tese 
Poesia anti-tese

Mas apaguem-se antes as Luzes
resguardem-se os sons como sons
e as mãos contornarão as formas;
entorno ao cheiro
a língua sentirá o sal;
sentirá o amargo, o doce e insosso de não ser.


Prólogo

Fogo, roda, lamparina, luz elétrica.
Ação!
Descarte as sombras da noite;
descarte o acaso.
Luz sobre o caminho, companheiros!
Estamos livres!

Quer ser livre de quê, homem?
Do absurdo?
Do acaso?
Do medo?
Da vida?

Que liberdade é essa?
Cimenta tua vida numa estrada
e enche de postes.
Tá cego, diacho?!


Último episódio

Chegou a hora de ser.
Vivamos. 
Sem essa de descartes.

Viva a revolução dos sentidos!

Andemos no escuro, de corpos nus.

Vamos para o norte, Madalena.
Lá ninguém liga para as meninas
de calcinha e sutiã
perambulando pelas ruas.
Lá se vive todos os dias;
podemos ver as esquinas,
as casas, as ruas, as pessoas;
Lá se vê o caminho que surge em cada desvio;
e o caminho é o fim.
Não existe filisteu.
Apenas jovens.
Jovens senhoras de 60 anos
com amarguras e tremores
em carnes flácidas;
com paixões de ódio e de amor.

Não são ainda como nós, 
mortos.

Vamos, Madalena, profanar seu véu!
Vamos, Madalena, ser finalmente livres."

sábado, 1 de outubro de 2011

encontro

timbre vinho aspirado
mudas de mudas palavras
pernas de noites mordidas
bocas entrelaçadas

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

pausa


Chez moi no espelho,
avec autre
nous autres
sans autre.
Mari sans Mari.
"a vida é rarefeita em qualquer lugar"
"e aí ? "




[para Marina]

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Carta 2

Sabe, é incrível como cada vez mais gosto de Rimbaud. E você?


"ELE. – Vamos, meu peito contra o teu,
                        Bem juntos, hã?!,
            Gozar o ar puro, ao zul do céu
                        Desta manhã

            De fresco sol que banha o dia
                        De vinho?...e, por
            Todo o bosque, que se inebria
                        Mudo de amor,

            Ver cada galho que desperta,
                        Claro botões,
            Sentindo, em cada coisa aberta,
                        Carne em tensões:
           
            E atirarás para as urtigas
                        Teu penhoar,
            Rosando o ar azul que abrigas
                        Em teu olhar,

            Que pelos campos te acompanhe
                        Semeando em tudo,
            Como uma espuma de champanhe
                        Teu riso agudo,

            A rir de mim, ébrio que avança
                        − Assim vai ser! –
            Para agarrar-te a bela trança,
                        Oh!  − e beber
           
            Teu gosto de amora e cereja
                        Carne em botão!
            Que ris da brisa que te beija
                        Como um ladrão,

            Da rosa-brava que te invoca,
                        Acariciante;
            E, sobretudo, ó minha louca,
                        De teu amante!...
....................................................................
− Teu peito sobre o meu inclina;
            Numa só voz,
Lentos, ganhamos a ravina,
            E a mata após!...

Desfalecida e quase entregue,
            Em teus refolhos,
Me pedirás que te carregue
            Cerrando os olhos...

E vou levar-te, palpitante,
            Pelo sendeiro.
Uma ave canta o seu andante:
            Ao Castanheiro...

Falar na boca, arfar na face
            Irei, premendo
Teu corpo como se o berçasse,
            Teu sangue vendo

Correr azul na pele branca
            De róseo tom;
E te falando a língua franca...
            Que sabes...− Bom!...

No bosque o odor de seivas ponho...
            Do sol o espelho
Polvilha de ouro o grande sonho
            Verde e vermelho.

            .......................................................................

            À tarde?... A trilha branca em face,
                        A serpentear
            Como um rebanho que pastasse,
                        Vamos tomar,

            Vendo vergéis de erva azulada,
                        Maçãs, agrumes,
            Sentindo ao longe pela estrada
                        Fortes perfumes!

            O sol, de volta ao vilarejo,
                        Já não mais arde;
            E há de haver um cheiro a queijo
                        No ar da tarde;

            E nos estábulos, depois,
                        A estrume morno;
            E os lentos hálitos dos bois,
                        Dorsos em torno

            Brancos, à luz que morre e seca;
                        E, noutro espaço,
            A vaca ufana que defeca
                        A cada passo...

As cangalhas da avó que arqueja
            Sobre o missal;
E esses canecos de cerveja
            De aro em metal,

Que entre cachimbos que fumegam
            Vão espumando;
E os brutos beiços que se entregam,
            Sempre fumando,

Aos garfos grossos de presunto,
            Mais, mais; a luz
De fogo estende um manto de unto
            Sobre os baús.

Nádegas gordas, luzidias,
            De carapuça,
Mete um bebe nas traças frias
            A branca fuça;

Roça-o rosnante um cão que ronda
            Com seu focinho
E lambe a cara bem redonda
            Do menininho...

Escura, altiva na cadeira,
            Perfil bravio,
Uma velha junto à lareira
Carda seu fio;

Quantas coisas veremos, cara,
            Nos lares toscos,
Quando alumia a chama, clara,
            Os vidros foscos!...

− Então, minúscula, coberta
            De bogari,
Veremos a janela aberta
            Que nos sorri...

Virás, que o amor em mim não cabe,
            Não dá sossego!
Virás, não é? e até, quem sabe...

ELA. – E o meu emprego?"




Seu, 
Paulo.
     

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Carta 1

Oi, Paulo. Sua carta não foi invasiva, de forma alguma. Não há absolutamente nada nela que possa interferir em minha vida. Li tudo o que escreveu, acompanhei atentamente até a última palavra. Achei seu texto um pouco artificial. Não sei quanto tempo levou para escrever isso, quantas palavras apagou, quantas vezes leu e releu o escrito com receio do que eu pudesse pensar, mas não importa. Não me interessa saber o que pensa ou o que faz. Gostei de te conhecer, mas para mim você é um estranho tal como era há duas semanas. Li tudo o que escreveu, mas suas palavras são mudas para meus olhos, meus ouvidos, minha pele... Enfim...
Desculpe minha franqueza. A princípio, pensei em me calar, em não responder sua carta. Mas preferi deixar tudo claro. É difícil lidar com o desejo do outro, principalmente quando o próprio desejo está em outro lugar. Não quero você. Sua presença é indiferente para mim.  Sua existência não me diz respeito, o mundo que existe em você me é distante e não quero que isso mude.
Não quero ter a esperança tola dos apaixonados de que será possível em algum momento ter você. Não quero mais querer isso, essa falta que nunca acaba, essa vontade de ter outro por completo. Não. Até ler seu e-mail, estar ou não perto de você não me causaria coisa alguma. Agora já me sinto incomodada só em pensar na possibilidade de te encontrar. O que faço ao saber que existe em você uma falta plasmada pela minha existência? Talhei um vazio e existe agora um lugar no qual minha existência se encaixa confortavelmente. O que faço com esse vazio que ficou aqui? Vejo os contornos do teu corpo e da tua voz na minha memória. E preciso preenchê-los. Não sei como lidar com isso.
Fato é que tenho minha vida aqui e não queria bagunçar tudo por sua causa. Você mexeu comigo, mas não existe a menor possibilidade de nos encontrarmos efetivamente. Você não gosta tanto de psicanálise? Deveria saber. Nunca existirá. Então, por que alimentar isso?

Nina


sábado, 20 de agosto de 2011

Carta 0

Nina, você não precisa ler esse e-mail até o final, mesmo porque nada do que escrevi é indispensável para sua vida. É para a minha.   
Hoje passei a noite tentando afastar umas sensações que cismavam em interromper meu sono. Uma hora me dei conta de que o problema era a partida, acho que pela primeira vez até hoje. 
Evitei a viagem o máximo que pude com medo de não conseguir nem falar com ninguém, nem sobre nada, caso algum interlocutor me aparecesse. Mas hoje, antes de partir, tive a certeza de que nunca me senti tão bem como quando estive aí entre vocês, tão estranhos. Em momento nenhum percebi meu sotaque e ouvia suas pronúncias como alguma coisa extremamente natural, como se esse som marcado, tão forte, fizesse parte de mim desde sempre. Só hoje, quando andava pela cidade, ainda um pouco perdido, e encontrei uma menina da minha terra, percebi nela o que havia de diferente em mim, mas sem identificar comigo aquele estranhamento. Não sei se é capaz de entender. Racionalmente eu sabia que aquilo correspondia a mim, talvez por ter ciência do lugar de onde venho. Mas se por acaso essa informação me fosse negada por um motivo qualquer aquele instante, por um lapso qualquer, o que ficaria seria apenas o reconhecimento do outro que aquele som me apresentava. Tudo o que ele me causou foi um tipo de suspensão no espaço, como uma consciência sensível da falta de pertencimento total. Em bom português, me senti um peixe fora d'água sem ter ideia do motivo. Apenas lembrando de você durante o vôo percebi do que se tratava. 
Você não é daí, seu sotaque é tão marcado quanto o meu, e não percebi nada. Durante todos esses dias, você me era tão estranhamente familiar como os outros. Mais até. Nunca consegui perceber sua presença como a de um estrangeiro. Em você, me senti em casa.
Preciso voltar para casa.
Urgente.

Paulo

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Rio de Janeiro, 31 de fevereiro de 2011

Um dia a chuva acaba.
Um dia você vai embora.
Um dia termina a balada.

Boca, moca, moça, poça
leão, pão, avião
Morena,
a vida do seu ventre pula,
você come a maçã,
afã do meu sofrimento;
vomita a verdade em minha cara.

Toma um pileque, moleque,
vê teu futuro no velho boteco da esquina
da vida;
a vida na poça.

Negra do branco,
que tem seu cheiro,
que eu sempre soube
- reconheci
[desde pequeno].
Nina, ninha,
minha, mainha.

Quando tu era grande
era rainhas das minhas vontades:
Maria, Kely, Vanessa, Valesca,
Rogéria, Rosária, Rosa, Aparecida:
todas você em todos os nós.

Agora está só
é uma
só uma, enfim;
e tudo o que não foi
volta pro meu sertão.





Adeus...
Paulo